domingo, 27 de setembro de 2015

A praxe

      A semana que acabou de terminar foi a semana da recepção ao caloiro na minha faculdade. Eu decidi ir à praxe, porque não há nada como experimentar algo novo e termos a nossa própria opinião acerca deste tema! Aviso-vos já que vou escrever tudo o que se passou na minha praxe num ponto de vista mais negativo do que positivo, o que não implica que eu seja anti-praxe, eu não me declaro como tal!
      Segunda-feira! Ainda não eram 09h já estava a caminho da faculdade com mais duas caloiras e três trajadas. As raparigas trajadas explicaram-nos que os dois primeiros dias de praxe são os mais complicados e que devemos ir de espírito aberto, de modo a enfrentarmos tudo o que iria acontecer com mais calma.
      Quando chegámos à faculdade, as trajadas foram à vida delas e nós, três caloiras completamente desorientadas, fomos logo abordadas por um grande grupo de pessoas vestidas de negro de alto a baixo! Enviaram-nos para o átrio da associação de estudantes e lá ficámos junto dos nossos colegas caloiros! Até aí tudo bem, porque fomos conversando com alunos mais velhos e gritando pelo nome do nosso curso. Chegou a certa altura, que o local se tornou irrespirável com a quantidade de calor humano que se fazia sentir, algo a que chamam de sauna, que pelos vistos era planeada. Sem esperar, de repente, fecham as portas todas e um trajado começa aos gritos, completamente histérico, com um taco de basebol na mão, a ameaçar todos os que não estivessem de olhos postos no chão. Quem se risse, quem levantasse a cabeça ou quem conversasse levava logo com um grito bem alto nos ouvidos e ofensas até mais não. Vários rapazes foram logo expulsos da praxe, de forma algo violenta, como por exemplo, empurrados contra a porta! Na minha cabeça só pairavam duas perguntas: "Desisto agora? Ou desisto mais daqui a bocado?"
       Acabei por decidir ir avante e ver o desenrolar da coisa. Cheguei à hora de almoço e desisti! Assim que me vi livre de trajados e do meu grupo, saí da faculdade e segui para casa! Agora, aposto que querem saber os motivos pelos quais acabei por desistir e o porquê de só o ter feito ao almoço...Pois bem, vou tentar não tornar esta explicação demasiado extensa, já que me recordo de cada detalhe, de cada fala e de cada ofensa que ouvi!
       Organizaram-nos em duas filas e lá seguimos uns atrás dos outros de olhos postos no chão, a receber ameaças e, inclusive, empurrões (no meu caso, nem sei como é que não me espalhei ao comprido, tal foi o empurrão que recebi!) por todos aqueles com quem nos cruzávamos e que vestiam o traje com o maior dos orgulhos. Chegámos ao campo de jogos! Eu já me encontrava a ferver por dentro, com vontade de mandar aqueles ditos cujos, que se auto-intitulam de doutores, "à fava", para não colocar termos obscenos por estes lados. Pediram que quem tivesse algum problema físico se dirigisse ao centro. Não pensei duas vezes, completamente recordada das dores horríveis que a tendinite no joelho esquerdo já me provocou, dirigi-me ao centro. Explicámos a nossa condição e disseram-nos que, quando nos mandassem "pôr de quatro", para não o fazermos. Assim foi, tendo retornado para as filas. No mesmo campo, dividiram-nos em "manadas" com cerca de 30 "bichos" cada, para irmos todos contentes (só que não) a bater os "cascos" para fora do campo. Passei o resto da manhã sentada a conhecer as pedras do alcatrão do parque de estacionamento, a decorar frases para declamar aos excelentíssimos, aos veteranos, aos demais doutores e aos colegas bichos como eu, a decorar os nomes dos meus doutores e a tentar perceber quem eram pela voz, a escolher um nome para a minha maravilhosa manada e a fazer figuras tristes, quando nos ordenavam pôr de quatro, o que correspondeu a metade da manhã! Como não podia estar de quatro, tive de fazer de bailarina e andar a rodopiar de pé cochinho com os braços no ar....
        "NÃO OLHEM PARA MIM!!!! SE VEJO MAIS ALGUÉM A FAZER CONTACTO VISUAL COMIGO, ESTÃO TODOS LIXADOS E VÃO PASSAR A MANHÃ DE QUATRO" - uma das frases mais repetidas e gritadas na praxe. Além das ofensas diretas, da estupidez com que trataram os estrangeiros, principalmente os franceses, e das cinzas de cigarro com que levei em cima, ainda queriam que pagasse 30 euros pelo kit de caloiro, que não trazia nada mais, nada menos, que o código de praxe, publicidade, uma t-shirt, a pulseira para a festa da faculdade, uma mochila e preservativos! Não comprei o kit, sendo que ainda não eram 11h30, já eu estava desesperada para ir almoçar e "dar de frosques" dali! Só fomos almoçar às 14h, pelo que estive desde as 07h15 até às 15h sem comer, em condições estupidamente estúpidas. Disse a uma colega que ia sair dali e vim para casa. Há noite mal conseguia andar, tais eram as dores no joelho! Há meses que não tinha dores tão fortes, o que me levou a rogar tantas, mas tantas pragas à porcaria da praxe, que vocês nem imaginam!!!
        Humilhação e integração não são sinónimos! A praxe não é obrigatória! A praxe não é o único meio de integração! A praxe não deveria ser abusiva! Saibam dizer não, quando a vossa dignidade for posta em causa! Eu estou a adorar o meu curso e já conheci imensos colegas, tudo fora do conceito da praxe! Estou extremamente feliz por ter desistido! E não, não sou estúpida, nem cobarde como os doutores da manada chamavam a quem pensava desistir! Eu não os avisei que ia sair da praxe, não lhes devia justificações nem sou submissa! Digo-vos, só não saí antes do almoço, porque queria ter a certeza de que não me iria arrepender da minha decisão, além de que dispensava ser humilhada diretamente à frente de colegas da minha turma.
        Eu sou a favor de praxes saudáveis, que realmente fazem uma pessoa sentir-se integrada e feliz num meio que lhe é desconhecido, porém não me peçam para ser a favor da praxe da minha faculdade, porque há praxes e praxes e eu detestei a da minha!




        Tenho muito mais para vos contar acerca desta looooonga semana que passou. Preparem-se, pois a história da praxe não está terminada!

Beijinhos, Cátia

8 comentários:

  1. Agora fiquei assustada para a minha praxe no próximo ano! Mas como disseste quero experimentar e ter a minha opinião porque em cada faculdade há uma praxe diferente...

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  2. ui... agora quero saber o resto da história! beijinho querida <3

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  3. em que curso estás ? :)

    eu fui à praxe (e praxei) mas a minha praxe foi muito boa, mas conheço casos maus infelizmente e nesses casos sou a primeira a dizer para as pessoas se imporem e se virem que nada muda então desistir. Toda a gente deve experimentar porque as praxes não são todas iguais nem as pessoas que praxam :)

    R: quanto ao cabelo vou cortar amanhã :)

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  4. Nunca fui praxada nem senti falta disso. Cheguei e integrei-me bem e hoje que sei como as praxes da minha faculdade são por relatos de colegas meus sinto-me aliviada por nunca ter sentido necessidade disso para o que fosse.

    ps: mudei o link do blogue, se quiseres continuar a ver os meus posts no teu feed tens de seguir de novo :) ass: P'

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  5. Infelizmente cada vez as praxes são mais abusivas e feitas com o sentido de humilhar, é muito triste...

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  6. Há praxes que na verdade não devia ser chamadas de praxes, a meu ver, em muitas faculdades são um meio das pessoas se tornarem agressivas e "ofenderem" sem resposta :| Infelizmente isso mancha o nome das praxes saudáveis! E tens razão, ir à praxe não é sinónimo de integração!

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  7. A humilhação das praxes é terrível.
    Post importante : Crystal-heart-world.blogspot.pt

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  8. Que assustador! Isso não são praxes saudáveis de certeza, ainda bem que desististe! Fico à espera do resto da história! Beijinho :)

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